domingo, 13 de abril de 2014

Prefácio a "Ser Poeta", de António MR Martins



No poema homónimo ao presente tomo, Florbela Espanca escreve que ser poeta “é condensar o mundo num só grito”. António MR Martins denota essa característica em muitos dos poemas constantes neste volume.

Para o poeta, a palavra assume-se de facto como grito. Ele está no meio da multidão, não se coibindo de a observar, partilhando dos seus ritos, das suas ânsias e medos, mas, também, dos seus sonhos. Não é portanto imune ao potencial contágio do que enforma a cidade.

E é na observância deste jogo entre o ser e o parecer, entre o rosto e a máscara que o verso surge. E eclode forte como um grito, ou seja: algo que se eleva para que seja ao outro, o que consigo partilha a cidade, perceptível por entre os ruídos que a habitam e condicionam a comunicabilidade; algo radicalmente urgente.

Mas se esta sua não indiferença perante a coisa do mundo é uma via, outra se desvela: um caminho pelo sentimento como se fosse possível através, sobretudo, do amor atingir uma espécie de Arca de Noé perante a iminência de um Dilúvio.

E é neste segundo trilho que o poeta nos demonstra que o amor não se faz, não é aquilo que comummente se convenciona. Sabe que só o seu reflexo é vislumbrável, e tudo porque o amor simplesmente é.

“Ser poeta”, o livro que tem agora nas suas mãos, é para ler, mas essencialmente para se ir lendo. Tal como a vida, que não é para se viver, mas para se ir vivendo, usufruindo dessa forma de cada instante, mesmo que necessário se torne o grito, e tantas vezes este é preciso, porque cada instante, por mais (aparentemente) pobre que seja, guarda sempre a magia que só a palavra poética é capaz de revelar.


Coimbra, 22 de Fevereiro de 2009


in MARTINS, António MR - "Ser Poeta". Temas Originais. 2009
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