segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

de "Acordes de azul" - 9

Rodopia no dorso das pombas.
Esta é a tua praça.
Em tua voz
se reclama o regresso
da poesia ao ventre da cidade
rente ao sangue, à vida.

in "Acordes de azul" (e-book, Virtualbooks, Brasil, 2002)

domingo, 29 de dezembro de 2013

de "Acordes de azul" - 8

reside aqui a carícia
extrema, o poema
como pétala
ampla
aberta ao sol

in "Acordes de azul" (e-book, Virtualbooks, Brasil, 2002)

sábado, 28 de dezembro de 2013

de "Acordes de azul" - 7

Repara nesta pedra e sente
o sangue a seiva que a percorre
Fecha teus olhos e procura
o oculto cinzel do teu sonho
para que nado o corpo vejas
onde era frio inerte o nada

in "Acordes de azul" (e-book, Virtualbooks, Brasil, 2002)

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Prefácio a "Poesia sem remetente", de Manuela Fonseca



Após ler este “Poesia sem remetente” ainda, naturalmente, inédito, coube-me escrever o prefácio à obra da poetisa Manuela Fonseca. Foi um convite que com agrado aceitei, mas que, espero, não seja criador com este texto de ruído antes da fruição da obra pelo leitor.

Contaminado pelo que conhecia da autora, o romance: “O Último Beijo”, onde estilisticamente nos oferta três registos distintos, mas sábia e habilmente interligados, eis-me perante uma obra, desta feita de poesia, plena de sensibilidade, de emotividade.

Se o romance já me transmitia a existência de uma poetisa, não só pelo facto de haver poemas neste inseridos, este seu novo livro não só confirma, mas como que me deixa naquela situação peculiar: por que gosto, por que há aqui, entre sons, palavras, ritmo, imagens, ideias, sensações, algo que me diz muito mais do que uma boa parte das obras a que até hoje tive acesso?

Diz-me porque aqui há poema com gente dentro, há o sorriso e a lágrima, mas de facto, não mera sugestão; porque aqui há o murro no estômago da indiferença e há o recanto pródigo do silêncio que em si mesmo todo o poema procura; porque há aqui alguém que escreve por ela própria, mesmo que seja o tal fingidor proposto por Fernando Pessoa, como se a sensibilidade que há pouco referi estivesse à flor da voz.

Sente-se nesta obra, nos seus cinco movimentos, o trémulo e o ímpeto dessa voz bem própria de Manuela Fonseca, quase diria em cada dobra do poema. Vive-se nas arestas de uma magia pródiga edificada por palavras a decifrar, plena de sensações, emoções, conceitos, valores, tudo como uma janela aberta sobre o mundo em que vivemos, sobre este mundo regido por horários, janela essa que nos mostra a possibilidade da poesia ser agente de mudança.

No entanto, e sobretudo, há a presença forte de um olhar, de um olhar sensível, não sobre o tal mundo, mas, essencialmente, sobre nós, mesmo sobre quem me lê exactamente neste instante. Exagero de prefaciador?, que seja, o leitor no final o dirá.


Coimbra, 30 de Agosto de 2010


in FONSECA, Manuela - "Poesia sem remetente". Temas Originais. 2010

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

de "Acordes de azul" - 6

quando a cidade se recolhe
e o olhar promove sombras
uma silhueta
é breve actriz
ondulante vela ardendo
em silêncio

in "Acordes de azul" (e-book, Virtualbooks, Brasil, 2002)

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

de "Acordes de azul" - 5

Ouve o rumor distante. É mar
batendo no rosto das rochas.
Sente o teu corpo evolar por
sobre as ondas. E um desejo
nascendo. Um estranho querer
de demandar o azul infindo.

in "Acordes de azul" (e-book, Virtualbooks, Brasil, 2002)

domingo, 22 de dezembro de 2013

de "Acordes de azul" - 4

Os pássaros pousam nos
beirais da música. Despertam
em acordes de azul. E procuram
nas nuvens o ritmo, a cadência
do cosmos como se moldassem
o original caos em seu cantar.

in "Acordes de azul" (e-book, Virtualbooks, Brasil, 2002)

sábado, 21 de dezembro de 2013

Para o filho da minha esposa, Vítor

No dia do seu aniversário, um poema, desta feita inédito.

ao Vítor


                              "e que rumem rumo ao sonho
                              porque antes vivê-lo um segundo
                              que chorá-lo toda a vida"

                                                  Xavier Zarco


todos os passos contam mesmo os dados
que outros chamam de errados mas são teus
todo o passo constrói o istmo que nos
une ao mundo mas mundo algum detém
nas mãos o barro o ofício que nos faz
ser o que somos sempre e em cada instante

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

de "Acordes de azul" - 3

Onde deitaste o silêncio
a extrema morada
se revela. O ofídio
primordial chama por ti,
reclama a tua presença,
habita o teu sonho, o fogo,
reaberto no teu corpo.

in "Acordes de azul" (e-book, Virtualbooks, Brasil, 2002)

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

In Memoriam - Vitorino Nemésio

Ao assinalar-se, hoje, dia 19 de Dezembro de 2013, os cento e doze anos sobre o nascimento de Vitorino Nemésio, deixo, como homenagem, este ciclo que foi editado em 2011 na "Antologia de Escritas 8".

 
Sob epígrafe de Vitorino Nemésio
 
De quando em quando junto as recordações para morrer
 
Vitorino Nemésio

 
1.
 
em certo dia de outubro
trouxe a dor à minha mãe
se era dor na face o rubro
rubro era o sonho também
 
 
2.
 
troquei cromos berlindes e até tive
carros de rolamentos namoradas
tantas quantas no bolso os rebuçados
e até confesso aqui a caça aos grilos
e os custelos as figas o saltar
dos muros o roubar da fruta digo
das cabeças partidas dos joelhos
esfarrapados tudo num sorriso
por tudo isso eu digo sem temor
que fui uma criança bem feliz

 
3.
 
há molduras que me chamam
que me acordam na noite de um poema
poema filho poema filha
onde a palavra pai poeta diz-se
com a vaidade pura de não ter
palavras para erguer que seja um verso
um só verso capaz
de ser sombra reflexo vestígio
apenas isso
desse mor poema filho
desse mor poema filha
 
 
4.
  
trago a enxada com que cavo
dia-a-dia a minha cova
e trago o rio onde lavo
o sal do mar numa trova
 
e se mais em mim trouxer
que então seja o que vivi
porque só do mais que houver
quero a terra onde nasci

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

de "Acordes de azul" - 2

Observo a memória em metástases
constantes. De súbito, des-
conheço o vivido. O real
é também fruto de um sonho
de um momento em que as pálpebras
se descerram
como cortinas que indagam
o sol, o misterioso
sol que na alma habita.

in "Acordes de azul" (e-book, Virtualbooks, Brasil, 2002)

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Sobre “Travessia”, de José Félix




Regresso amiúde a diversos livros, desta feita apeteceu-me reler “Travessia”, de José Félix, obra que veio a lume em 2008, sob chancela da Edium Editores.


Este título era, na altura, o quarto livro editado pelo autor, surgindo após “Geografia da Árvore (a reinvenção da memória)”, Col. Poéticas de Lav(r)a, Múchia Publicações, Funchal, 2003, “Chá das Quatro”, em parceria com Aníbal Beça, integrado no livro de haicai “Folhas da Selva”, Editora Valer, Brasil, 2006 e, sob edição de autor, “Íntima Loucura”, de 2007.



Posteriormente, José Félix trouxe a lume “Lições de Eros”, em parceria com Xavier Zarco, Edium Editores, S. Mamede de Infesta, 2008, “Teoria do Esquecimento”, Temas Originais, Coimbra, 2009, “Vagabundagem (Um tributo ao poeta chinês Han Shan)”, Temas Originais, Coimbra, 2011 e “O Sol de Ícaro”, em parceria com Xavier Zarco, Temas Originais, Coimbra, 2011.



José Félix, cuja obra conheço há um bom par de anos, sobretudo através da lista do Yahoo que modera, Escritas, representa para mim uma espécie de omnívoro da Poesia porque procura, investiga, estuda o fazer poético. Aliás, nunca se sabe sob que forma se apresenta a sua Poesia. Mas mais importante do que descortinar a vestimenta que o seu poema trará, é saber que se vai ler com gosto o que se nos apresenta após a abertura da mensagem electrónica.



Agora uma coisa é a leitura de esparsos, outra bem diversa é a leitura de um livro. Este é um objecto, mas transcende a sua condição física. Na Poesia, naquela que de facto conta, é um objecto meditado, pensado ao pormenor. Nasce para ter vida própria, para fazer parte da vida de outro, outro que não é o poeta, o que o gerou.



Posto isto, entremos pois neste universo chamado: “Travessia”. José Félix nasceu em Angola, licenciou-se em História e reside em Portugal. Esta sinopse biográfica, concisa, talvez em demasia, mostrou-se-me deveras importante para o desbravar deste seu: “Travessia”.



Ensina o dicionário que travessia é o 



“acto ou efeito de atravessar”. (1) 



Continua afirmando que é 



“passagem através de uma grande extensão de terra ou mar”. (2) 



E conclui dizendo que também é:


“vento contrário à navegação”. (3) 


Nada há de mais correcto. Esta obra, composta por dois ciclos, que interagem entre si, cada um com doze poemas, como doze são os meses subjacentes à epígrafe de Jorge de Sena:



“As Quatro Estações eram Cinco



O verão passa e o estio se anunciaque o outono se há-de ser e logo inverno

de que virá nascida a primavera.

Mais breve ou longo se renova o dia
sempre da noite em repetir-se, eterno.
Só o homem morre de não ser quem era.” (4)



dá-nos, no primeiro, a planificação da passagem e, no segundo, a sua impossibilidade, através da adversidade, para simplificar, a acção do vento contrário.



Leio desta forma dado que o que se me apresenta é a condição do exílio, própria de quem sente presente a ausência concreta, porque distante das suas ou de imaginárias raízes.



A melhor imagem que encontro para exemplificar o exílio é a de uma criança no ventre materno. Ao sair, ao ser expulsa desse abrigo, desse porto de abrigo, ao sentir o corte do cordão umbilical, continua em si, radicalmente gravado o vínculo que a acompanhará para sempre. Este é, no fundo, o plano dos afectos, a consciência do exilado.



E é por esse motivo, na minha leitura, que o poeta escolhe, e bem, a epígrafe de Jorge de Sena, onde no ciclo das estações, na observação de uma espécie de eterno retorno, 



“só o homem morre de não ser quem era”. (5)



Daí a necessidade da planificação cuidada que o isomorfismo dos poemas do primeiro ciclo bem evidencia. Nessa fase, o poeta recolhe as palavras essenciais para a elaboração do seu ritual, mas tendo plena consciência de que o exílio, ou a sensação deste, é permanente, o que o leva a afirmar, logo na abertura:



“há uma dor peninsularnas arestas das casas, nas fissuras

e na palavra memória” (6)



E tanto assim é que recorre à ideia de península que vai sendo trabalhada ao longo deste ciclo, o primeiro, intitulado exactamente: “Travessia”. Alguns exemplos, no segundo poema: 



“nas margens da península deserta” (7), 



no quarto: 



“a península coberta” (8), 



entre outros. Mas chamo a atenção ao oitavo poema:



“a dor da ilhaprocura uma passagem, o tal istmo” (9)



Apesar de tudo, o poeta compromete-se a prosseguir no seu intuito de regressar, porque



“o tal istmoque a linguagem tem através da escrita,

onde se vê o voo das garças brancas

arquitectando as dunas da península”. (10)


Voltando ao meu fiel conselheiro, o dicionário, este recorda-me que península, palavra fundamental pela imagem que em nós desperta, como não poderia deixar de ser, se repete ao longo deste volume por doze vezes, aparece definida como 



“Porção de terra cercada de água e ligada ao continente por um só lado, denominado istmo” (11)



No poema a que chamei a atenção, o oitavo, eis que me surge, de novo, a imagem da criança na palavra ilha, desprovida de um vínculo real, palpável com o seu espaço inicial. Agora é homem e afirma-se como herdeiro de um passado, repleto de outras paisagens, sonoridades, aromas, palavras. Todo esse manancial, do qual não se pretende despojar, dá-lhe a argamassa essencial para a sua poética, para a elaboração do seu plano de acção, de regresso, de saída da sua condição de exilado.



“um gesto no cabelo vem de longe.traz o sabor silvestre das amoras,

os caminhos estreitos onde as mãos

entrelaçadas ficam lendo as margens
adolescentes, e na cor da língua,
os frutos rubros que a manhã aquece.



aduelas velhas prendem o jardimnos olhos do menino que persegue

o voo da gaivota na península” (12) 



e este décimo primeiro poema termina desta forma:



“do vento surge a cinza do princípio” (13) 



e o derradeiro poema deste primeiro ciclo começa com:



“eu sei que tens a dor à tua espera” (14)



E termina:



“esperas, impossível, a palavra,a que germina no coito de um búzio,

e sopra sob a pele da noite nua” (15)



Recordo, travessia também significa



“vento contrário à navegação” (16).



Como escreveu Fernando Pessoa: 



“o homem sonha, a obra nasce” (17) 



E se o poeta elaborou o seu plano, reuniu os seus artefactos, a sua matéria plena de sons e palavras, só lhe resta o cumprimento. Eis que surge o segundo ciclo intitulado: “o país das águas”.



País, pátria, útero, ponto de partida radicalmente das águas. E o poeta vai ao encontro do seu desígnio, da sua demanda íntima através do ofício da escrita:



“promontório aberto é a fugapara o país das águas.

a península é a lembrança rasteira

duma carícia de afectos
que atravessa o corpo na idade da areia” (18) 



Anuncia neste mesmo poema, que abre o segundo ciclo, que:



“há sorrisos na passagem das aves” (19)



É a utilização do instrumento da memória. Um instrumento difícil da oficina poética, que tanto nos traz a recordação do que desejamos como o seu reverso, mas cujo manuseamento se torna urgente e necessário. Como menciona o próprio poeta:



“há um rio no país das águas.nas margens, o meu pai

dá-me a explicação dos pássaros.



(...)



fico a saber que há sempre um começo e um fim



(...)



e o meu pai, a substância e o espelho.eu tenho um deus comigo e eu não sei” (20)



Regressando à memória, desta feita à memória cultural, completemos pois a citação de Fernando Pessoa: 



“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce” (21)



Ao empreender esta jornada íntima, no cerne de si próprio, através dos escombros, vai-se encontrando cada vez mais próximo do ponto inicial do seu próprio ciclo:



“a seiva da pronúncia no limboda semente regenerada

navegam sons, antigos,

da geografia adolescente” (22)


ou



“no abraço das águas, a regeneração do corpo” (23)



no entanto, antes de prosseguir, há que regressar à palavra península, fulcral neste poemário, que surge transfigurada neste segundo ciclo, aqui, n’ “o país das águas”, é, como já referi, 



“lembrança rasteira” (24) 



para se tornar



“península perdida” (25)



expressão inserta no quarto e no sexto poema.



O poeta sabe que o regresso não será mais do que uma quimera e que continuará cativo à sua condição de exilado, dizendo, inclusive, no sétimo poema deste segundo ciclo o seguinte:



“entro na água como saí do ventreda minha mãe. imponderável, suspenso

no líquido primordial” (26)



um pouco mais à frente, no mesmo poema, continua:



“a remissão da viagem escondeo rosto nas mãos de sangue do cordeiro degolado

persiste a culpa da promessa, e uma

casa não é uma casa
na fonte do desejo com corpos apodrecidos
dentro dela” (27)



Agora, revendo a sua história, sabe que é este o tempo da construção. O tempo certo da sementeira. O ritmo redescoberto das estações. E o poeta observa-o, compreende-o. Reconhece os traços que se repetem ano após ano, no desvelar das estações. Mas sabe que é um mero espectador que tenta decifrar o perpétuo movimento com palavras e é pois nas palavras que radicará o seu refúgio, o seu abrigo, o seu ventre inicial:



“e o meu corpo está aonde vai a águao meu corpo está no vento

no ventre da casa conquistada à palavra

rude e simples e grávida” (28)


e é nas palavras, e por palavras, que ergue a sua nova dimensão, aquele que quis e que soube cruzar a distância demandando a raiz e desafiar a adversidade do vento, depurando e transformando em arte os escombros da memória própria ou inventada:



“a água é o princípio do lábiosubmerge o corpo do sangue do cordeiro

na pronúncia da primeira terra” (29)



Mas observa e aprende, descreve e inscreve:



“na gávea dos sentidos há o país das águas” (30)



Na percepção que só no íntimo encontrará o objecto da sua demanda, mesura o tempo de chegar, de construir um porto, um cais. Dar-lhe um nome que corresponda ao encontro consigo ou, mais concretamente, com as palavras, sobretudo com a palavra casa ou ventre.



Se iniciou com um isomorfismo omnipresente no primeiro ciclo, com poemas de catorze versos, se prosseguiu no segundo com um jogo polimórfico, o ancorar só se poderia dar com os mesmos catorze versos iniciais, mas recorrendo a uma estruturação diferente, aquela que a casa da Poesia lhe oferta, guardada que está através dos tempos: o soneto, mas em verso branco porque há em si vestígios da demanda empreendida. Novos caminhos que se descobrem na sua memória porque o acto poético é um acto de vida:



“beijo o marcomo se é o ventre de minha mãe



(...)



demoro na colecta da sementee no apetite da voragem morro

abraçado ao tronco do esquecimento;

enfim, chegado à terra da alegria” (31)





NOTAS:(1) Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Grande Biblioteca Multilingue, QuidNovi. Matosinhos. 2002. Vol. 7. P. 185

(2) Ob. Cit. P. 185

(3) Ob. Cit. P. 185
(4) SENA, Jorge – in FÉLIX, José – Travessia, Edium Editores. S. Mamede de Infesta. 2008. P. 9. Com a seguinte indicação: “epigrama de Jorge de Sena in Poesia III”.
(5) SENA, Jorge – Ob. Cit. P. 9
(6) FÉLIX, José – Ob. Cit. P. 11
(7) FÉLIX, José – Ob. Cit. P. 12
(8) FÉLIX, José – Ob. Cit. P. 14
(9) FÉLIX, José – Ob. Cit. P. 18
(10) FÉLIX, José – Ob. Cit. P. 18
(11) Grande Enciclopédia do Conhecimento. QuidNovi. S/d. Vol. 12. P. 2070.
(12) FÉLIX, José – Ob. Cit. P. 21
(13) FÉLIX, José – Ob. Cit. P. 21
(14) FÉLIX, José – Ob. Cit. P. 22
(15) FÉLIX, José – Ob. Cit. P. 22
(16) Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Grande Biblioteca Multilingue, QuidNovi. Matosinhos. 2002. Vol. 7. P. 185
(17) PESSOA, Fernando – Obras Completas I. RBA. 2005. P.17
(18) FÉLIX, José – Ob. Cit. P. 25
(19) FÉLIX, José – Ob. Cit. P. 25
(20) FÉLIX, José – Ob. Cit. P. 26
(21) PESSOA, Fernando – Ob. Cit. P. 17
(22) FÉLIX, José – Ob. Cit. P. 27
(23) FÉLIX, José – Ob. Cit. P. 28
(24) FÉLIX, José – Ob. Cit. P. 25
(25) FÉLIX, José – Ob. Cit. P. 28 e P. 31
(26) FÉLIX, José – Ob. Cit. P. 32
(27) FÉLIX, José – Ob. Cit. P. 32
(28) FÉLIX, José – Ob. Cit. P. 34
(29) FÉLIX, José – Ob. Cit. P. 36
(30) FÉLIX, José – Ob. Cit. P. 36
(31) FÉLIX, José – Ob. Cit. P. 37

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

de "Acordes de azul" - 1



O que me resta é tempo. A areia na garganta
da ampulheta presa. Arte de perder
todo o verso, o poema, a poesia
a memória do canto.

O que me resta é escrever
enquanto tempo tenho para percorrer
os recantos da música que há nas palavras
para te deixar um sonho
somente um sonho
e pouco mais.

in "Acordes de azul" (e-book, Virtualbooks, Brasil, 2002)

domingo, 15 de dezembro de 2013

In Memoriam - António José Forte


Cumpre-se hoje, dia 15 de Dezembro, o vigésimo-quinto aniversário sobre a morte da António José Forte, poeta que admiro bastante. Desta forma, à guisa de homenagem, insiro um ciclo sob epígrafe que foi editado em 2012 na "Antologia Amante das Leituras 2012" (Temas Originais, 2012).


Sob epígrafe de António José Forte


O poeta sai de casa com uma aranha nos cabelos.

António José Forte


1.

trago uma aranha nos cabelos
como um cigarro
que se eterniza na algibeira
da gabardina
que se usa e guarda
no guarda-fatos da memória

2.

não sei ao certo há quanto tempo a aranha
tece a sua teia
nos cabelos que caem no poema
e o caiam de branco
como o branco
que o tempo em mim tece

3.

o mundo para mim começa a ser
sinto-o
e por isso o escrevo
a parede onde a aranha
caia
o branco que me caia

4.

em suma o mundo é este branco nos cabelos
tempo sentido
tecido pelas hárpias mais hábeis
enquanto eu o poeta ressuscita
nas palavras que acordam no papel
pelo olhar feito espanto de mim mesmo

sábado, 14 de dezembro de 2013

de “No rumor das águas” - 26

chamei-te

disse-te
de um murmúrio

pouco mais
que um sussurro

e cantaste

cantaste
a vida
dentro
de teu corpo

e leda

olhaste
nos meus olhos
chorando
e disseste:

"este é o teu filho"

e chorei
também

in “No rumor das águas” (e-book, Virtualbooks, Brasil, 2001). Obra com edição em castelhano numa tradução de Jose Rafael Hernández sob o título “En el rumor de las aguas” (Expresiones, Venezuela, 2002).

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

de “No rumor das águas” - 25

há um ventre
onde
plantada
fora a flor

ou o verso
que explode
e em estrofe
se transforma

e em poema
se eleva
e esvoaça

in “No rumor das águas” (e-book, Virtualbooks, Brasil, 2001). Obra com edição em castelhano numa tradução de Jose Rafael Hernández sob o título “En el rumor de las aguas” (Expresiones, Venezuela, 2002).

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

de “No rumor das águas” - 24

de teu rosto
se desprende
o teu nome

in “No rumor das águas” (e-book, Virtualbooks, Brasil, 2001). Obra com edição em castelhano numa tradução de Jose Rafael Hernández sob o título “En el rumor de las aguas” (Expresiones, Venezuela, 2002).

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

de “No rumor das águas” - 23

olha

neste barro
existe
oculto

um corpo

um corpo
que germina
no teu olhar

in “No rumor das águas” (e-book, Virtualbooks, Brasil, 2001). Obra com edição em castelhano numa tradução de Jose Rafael Hernández sob o título “En el rumor de las aguas” (Expresiones, Venezuela, 2002).

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Sobre “Corpo de Abrigo”, de Edgardo Xavier



Quando tive contacto com o que escrevia este autor criou-se de imediato uma empatia entre o que lia e o que eu entendo como o acto da escrita, o que levanta um desafio:

como escrever sobre a obra sem que apresente a minha própria metodologia de escrita?, como criar distância entre o eu que escreve e o eu que lê?

E digo isto porque há diversos aspectos neste “Corpo de Abrigo”, editado em 2011 pela Temas Originais, que têm muito que ver com aquilo que faço: poemas desprovidos de excessos, quase diria lapidados até ao osso; imagens cristalinas, sem recurso a grandes elaborações metafóricas.

Dois pontos fulcrais, a meu ver, para que a mensagem seja entregue ao outro com eficácia e este a reconstrua mediante os seus próprios valores, as suas próprias vivências.

A linguagem torna-se em pedra. Vai-se retirando o tal excesso. Procura-se dentro de si mesma ou, como refere o poeta:

“Uma luz doce desce
pelo teu ventre até à sombra
onde vibram os medos
e a boca mergulha como ave silenciosa”(1)

Se na literalidade descobre-se o corpo feminino, a imagem descreve-nos, pelo menos a este leitor, uma poética, um modo de operar em poesia. Aliás, creio que se murmura em cada dobra do poema o labor do poeta.

Quase diria que, ao aproximar-nos do abismo, pela finura do verso, podemos vislumbrar algo como, a título de exemplo, a sucessão de exercícios de Picasso para a elaboração do seu quadro “O Touro”.

Ou seja: na poética de Edgardo Xavier não se procura os que os olhos vêem, o aparente, sequer a sua representação pela aproximação, antes se indaga o absoluto.

Daí, na minha perspectiva, a palavra ser-nos legada como objecto erotizante, pleno de sensualidade, pronto, no fundo, para o deflagrar, não só da razão, pelo valor que emprestamos a cada palavra, mas, e sobretudo, dos sentidos.

Tal efeito é produzido pela musicalidade serena que o poeta nos dá pelo sábio uso da sonoridade das sílabas, música essa que, tal como afirma Edgardo Xavier:

“(...) vem de ti
promessa ainda demorada
na luz do tempo
no pó da estrada”(2)

ou seja, na minha leitura, das impressões colhidas e que a memória guardou e transformou ao longo do caminho que é a nossa própria vida.

E nesta vida outra que o poeta enforma em poema porque só a poesia:

“Diz o meu nome
pelo lado doce das sílabas
mansamente
Só na tua voz
se espelha a minha sede
e no verde líquido dos teus olhos
lavo os meus” (3)

Esta é, para mim, a magia da poética que este “Corpo de Abrigo” guarda: onde se descobre, pelo poema, a essência, o tal nome que verdadeiramente me pertence; a voz que se colhe na demanda da nossa própria sede; e, por fim, se limpa o olhar do aparente.

Este é o caminho, o trilho para se abarcar o verdadeiro conhecimento do eu, do outro, em suma: do mundo, do tal absoluto que antes referi e que o poeta, cinzelando cada palavra, procura e por isso afirma:

“Chamo por ti
até que a cinza me cubra
de negro e terra” (4)



NOTAS:
(1) XAVIER, Edgardo – “Corpo de Abrigo”, Temas Originais, Coimbra, 2011, P. 16.
(2) XAVIER, Edgardo – Ob. Cit., P. 25
(3) XAVIER, Edgardo – Ob. Cit., P. 33
(4) XAVIER, Edgardo – Ob. Cit., P. 41

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

de “No rumor das águas” - 22

as aves
esboçam
o movimento
do cosmos

e cantam
a alegria
de voar

de simplesmente
bater asas
sem destino

in “No rumor das águas” (e-book, Virtualbooks, Brasil, 2001). Obra com edição em castelhano numa tradução de Jose Rafael Hernández sob o título “En el rumor de las aguas” (Expresiones, Venezuela, 2002).

domingo, 8 de dezembro de 2013

de “No rumor das águas” - 21

desenharás
as mãos
com que colherás
as formas

momentos
de paixão
de música
ou de vida

ou de nada

in “No rumor das águas” (e-book, Virtualbooks, Brasil, 2001). Obra com edição em castelhano numa tradução de Jose Rafael Hernández sob o título “En el rumor de las aguas” (Expresiones, Venezuela, 2002).

sábado, 7 de dezembro de 2013

de “No rumor das águas” - 20

aguarda
que o vento
recolha
as palavras

e reconstrua
o caos

ou o poema

que cintila
nas arestas
da voz

in “No rumor das águas” (e-book, Virtualbooks, Brasil, 2001). Obra com edição em castelhano numa tradução de Jose Rafael Hernández sob o título “En el rumor de las aguas” (Expresiones, Venezuela, 2002).

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

de “No rumor das águas” - 19

entre
as folhas
caindo

sinto

o rumor
da seiva

correndo

in “No rumor das águas” (e-book, Virtualbooks, Brasil, 2001). Obra com edição em castelhano numa tradução de Jose Rafael Hernández sob o título “En el rumor de las aguas” (Expresiones, Venezuela, 2002).

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

de “No rumor das águas” - 18

no limiar
do mundo

o teu sorriso

candeia
iluminando

a fuga
de uma ave

rumando
ao horizonte

in “No rumor das águas” (e-book, Virtualbooks, Brasil, 2001). Obra com edição em castelhano numa tradução de Jose Rafael Hernández sob o título “En el rumor de las aguas” (Expresiones, Venezuela, 2002).

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Sobre “Ausência de mim”, de João C. Santos



Esta obra, “Ausência de mim”, da autoria de João C. Santos é, pelo menos para mim, a confirmação de que estamos perante um autor de excelente nível, do qual já conhecia múltiplos esparsos.

E digo-o porque é raro, como leitor, encontrar um primeiro livro sem que este seja meramente um somatório de textos desligados, sem que exista um fio condutor entre eles. E o que hoje aqui se pode ver não é um mero objecto a que designamos por livro, mas um livro com uma obra lá dentro.

Uma obra madura porque meditada, arquitectada e executada para ser um corpo íntegro ou, como se costuma dizer, com cabeça, tronco e membros.

“Ausência de mim” denota logo pelo título um estado precário do ser, mas revela também a possibilidade da observação do eu, ou dos eus, como se se recorresse a uma espécie de experiência extra-corpórea, algo que muitas pessoas referem, sobretudo quando saem de um estado de coma.

Uma sensação de um outro corpo, de natureza imaterial, em nós existir e do corpo material se ausentar.

Este estado, à falta de melhor termo, de alteridade, ou seja: do que é outro, pode subentender-se logo na abertura e no final se repete, quando o poeta escreve, e passo a citar: 

“o sonho de viver só tem forma quando se sente a morte”(1).

E pouco depois afirma: 

“Vou ao lugar onde deixo o mais importante, a alma”(2)

ou 

“levo morto o corpo nos dias em que acordo a alma”(3).

Há no fundo uma ideia de migração, um sair do corpo físico, mas um sair vigilante, para melhor meditar sobre o próprio eu.

Mas o João C. Santos, na minha opinião, vai mais longe neste seu livro. Parece-me que não pretende um resguardo puramente lírico, baseado no eu ou nos eus, mas uma meditação sobre a própria matéria com que se ergue a arte poética.

Repare-se, logo no quarto fragmento, que ele expressa o seguinte:

“As palavras crescem quando as devoramos, é na procura que se encontra a essência de qualquer arte.”(4)

Quase diria que há neste “Ausência de mim” a presença de Octávio Paz quando este mencionou que 

“o homem é um ser que se criou ao criar a linguagem. Pela palavra, o homem é uma metáfora de si mesmo.”(5)

A outra questão, na minha opinião, relevante neste livro do João C. Santos prende-se com o conceito de missão do intelectual. Enquadro-o na linha do que defende Juan Manuel de Prada, que essa missão é a de polemicar o seu tempo, ou seja. discuti-lo, travar polémica.

De facto, a solidão a que este personagem, o outro do eu, vive é algo que, na sociedade que edificámos, se torna cada vez mais presente, melhor: cada vez mais omnipresente.

A ideia do colectivo esvai-se em cada segundo que passa, o mundo desenha-se egocêntrico, o que conduz, inevitavelmente, à solidão, à ideia de solidão, recorrendo a um lugar comum, mesmo que estejamos no meio da multidão.

Talvez por esse factor, a ausência, ela própria, recebe a função de personagem. Ela é o repto, a voz que sussurra e que grita, dentro do poema fragmentado que João C. Santos ergueu.

Daí a coexistência de um discurso tendencialmente lírico e de um outro quase diria dramático que a introdução de diálogos indicia.

Em suma, sempre com a morte como pano de fundo, este livro mais do que diz, sugere, cria espaço para a necessário reflexão de quem o ousar descobrir.

E, no fundo, não será essa a verdadeira essência de toda a obra de arte?


NOTAS:
(1) SANTOS, João C. - "Ausência de Mim", Edium Editores, São Mamede de Infesta, 2008. P. 9 e P. 73
(2) SANTOS, João C. - Ob. Cit.. P. 12
(3) SANTOS, João C. - Ob. Cit.. P. 23
(4) SANTOS, João C. - Ob. Cit.. P. 13
(5) PAZ, Octávio - in "Citador". http://www.citador.pt/frases/o-homem-e-um-ser-que-se-criou-a-si-proprio-ao-cri-octavio-paz-2597 (último acesso a 19.10.2013). Com a seguinte referência: "Fonte: - O Arco e a Lira".

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

de “No rumor das águas” - 17

deixei
as palavras

esboçarem
o poema

semeando
os sentidos

um a um

à flor
de teu olhar

in “No rumor das águas” (e-book, Virtualbooks, Brasil, 2001). Obra com edição em castelhano numa tradução de Jose Rafael Hernández sob o título “En el rumor de las aguas” (Expresiones, Venezuela, 2002).

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

de “No rumor das águas” - 16

o guardador
guarda
o próprio cansaço

in “No rumor das águas” (e-book, Virtualbooks, Brasil, 2001). Obra com edição em castelhano numa tradução de Jose Rafael Hernández sob o título “En el rumor de las aguas” (Expresiones, Venezuela, 2002).

domingo, 1 de dezembro de 2013

de “No rumor das águas” - 15

delineara
o caminho

sentia
o sol

ardendo

nas muralhas
da face

assim

abriria fendas
na máscara
diurna

este era

sabia

o rumo
a seguir

in “No rumor das águas” (e-book, Virtualbooks, Brasil, 2001). Obra com edição em castelhano numa tradução de Jose Rafael Hernández sob o título “En el rumor de las aguas” (Expresiones, Venezuela, 2002).

sábado, 30 de novembro de 2013

de “No rumor das águas” - 14

aguarda

que do casulo
a mariposa
brote

e como corola
ao sol
se exponha

para que a noite
beije
a sua face

e voe

in “No rumor das águas” (e-book, Virtualbooks, Brasil, 2001). Obra com edição em castelhano numa tradução de Jose Rafael Hernández sob o título “En el rumor de las aguas” (Expresiones, Venezuela, 2002).

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

de “No rumor das águas” - 13

o poema

seria grão
de areia
na tua mão

se não fosse
estrela
galáxia
no teu olhar

in “No rumor das águas” (e-book, Virtualbooks, Brasil, 2001). Obra com edição em castelhano numa tradução de Jose Rafael Hernández sob o título “En el rumor de las aguas” (Expresiones, Venezuela, 2002).

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Sobre "27 Poemas", de António Rebordão Navarro



Em “27 Poemas”, António Rebordão Navarro escreve no poema “O grito” que:

“essa tarde de sábado em Coimbra,
(Rua da Sofia, há muitos anos),
em que me insultaram de poeta.” (1)

É, portanto, pelo exposto, necessário, para quem reside na cidade de Coimbra, embora no outro lado do rio, na minha sempre bela Santa Clara, mas que, por duas vezes, trabalhou na Rua da Sofia, curiosamente, à data, balizas da minha passagem pelos jornais, repetir o insulto. E se assim é, que assim seja.

Pois fique sabendo, caro António Rebordão Navarro, que, quer queira quer não, é mesmo poeta.

Recorro a um excerto de uma matéria publicada no Jornal de Letras, a vinte e quatro de setembro de dois mil e oito, sob o título de “O poeta na cidade, hoje”, da autoria de Eduardo Lourenço, onde este, a dado passo, escreve o seguinte, algo que, julgo eu, servirá para justificar o que acima mencionei:

“(...) os que sob a superfície lisa das águas escutam um rumor, um apelo que, literalmente falando, os não deixa viver, ouvindo o já ouvido, mesmo o mais belo e sublime, e buscam por sua conta a melodia única que lhes explicará o tempo que é o seu próprio tempo, e que não sossegam enquanto o não inventam e se perdem nele para se salvar. São eles que nós chamamos de poetas. São os que acrescentam a criação à criação e assim renovam o mundo.” (2)

António Rebordão Navarro enquadra-se neste possível esboço do que é, ou pode ser, o poeta. O que busca “por sua conta a melodia única que lhes explicará o tempo que é o seu próprio tempo”, o que acrescenta “a criação à criação e assim” renova “o mundo”.

E este seu livro: “27 poemas”, sob a capa de uma pretensa aridez anunciada pelo próprio título, corrobora essa afirmação. Mas entremos no livro, neste “27 poemas”.

Este volume sugere-nos, pela natureza do título, uma mera compilação de poemas. Algo sem um fio condutor, desprovido de uma ligação interna.

No entanto, ao abri-lo, deparamo-nos com um poema cujo título poderá ser demolidor dessa ideia. Lê-se: “Profissão de fé”; ou seja: uma declaração pública daquilo em que se crê; e onde o poeta nos oferta esta quintilha, que é, na minha opinião, a parcela mais relevante e que passo a citar:

“Eu sou, minha senhora, a sua sombra.
Estou consigo quando você se esvai,
me castiga ou compõe
com religiosos dedos a gravata
sob o colarinho amarrotado.” (3)

É, na minha leitura, o primado da vida. A morte, que encontro nesta senhora, perde o seu estatuto perante o homem, perante aquele homem que, tomando consciência plena desta, agarra com ambas as mãos o leme do seu próprio caminho. Ele é a sombra da morte, não o contrário.

Esta firme convicção em o poeta poder tomar como que posse da morte, ou seja: do medo, do medo último, para ganhar os argumentos essenciais para a plena fruição da vida.

Naturalmente que o amor, melhor: a relação amorosa; é um desses possíveis argumentos. Aliás, ele está bem presente na sensualidade patente no poema “Movimento marítimo”, embora nunca perdendo de vista que é, tal como se refere em “Declinação do amor”:

“Por ele [ou seja: o amor] nos vamos destruindo.
Corroídas, as palavras
sobem ao céu da boca, crucificam-se,
sabem a língua morta.” (4)

Em suma, leio aqui que o amor não se faz. Muito provavelmente nem se construirá. O amor é. E só desta forma ele deixará de ser um possível argumento, mas um dos mais relevantes argumentos para a tal plena fruição da vida.

Falei desta convicção, a de tomar como que posse da morte. Ela conduz à possibilidade da fundação do templo, um espaço interior, íntimo, a que António Rebordão Navarro, naturalmente esta é a minha leitura, denominará posteriormente de casa.

No primeiro de dois poemas intitulados: “A fundação do templo”; observamos um interessante jogo de antíteses. Como exemplo:

“Você pode ser lúcida e ser louca” (5)

ou

“Você é uma lâmina,
ou um lago deixando-se sulcar” (6)

No fundo, estamos aqui, apesar de ser o templo interior, íntimo, a observar, neste jogo de verso e reverso, uma imagem do mundo, do real e do mundo outro que só a boa poesia pode criar. Embora este último seja um mundo outro, diverso, não está dissociado do real. O mundo é um eterno jogo de opostos.

E é por isto que há pouco afirmei que o templo passa a ser casa. Embora lugar de refúgio, de protecção, mas também de afecto, é ponto de partida e de chegada, é espaço de reflexão que, permitam-me a expressão, só o nosso próprio cantinho propicia e potencia.

De novo, as convicções. No primeiro poema deste tríptico intitulado: “As casas (...)”, Rebordão Navarro lega-nos isto, e cito:

“Fizemo-nos as pedras do edifício” (7)

Embora exista a passagem de templo, espaço sagrado, de veneração, para casa, espaço habitado, logo mais ligado à vida, ao quotidiano, eles, templo e casa, persistem no poeta, no construtor do poema. Melhor: o poeta é templo e casa. São a mesma entidade, o mesmo ser.

E é aqui, neste ponto, nesta junção entre o interior e o exterior, não só do mundo real, mas do mundo outro que a poesia revela, que chegamos ao epicentro deste livro.

Um simples cálculo matemático seria suficiente para o determinar, mas, perdoem-me os matemáticos, ler é muito mais divertido.

Ora bem, se são vinte e sete, o décimo quarto está à mesma distância do primeiro e do último.

Esse poema, o tal epicentro do livro, tem o nome de: “Concerto”; um nome que por si só já nos diz muito. É um poema singular neste volume, marca a diferença relativamente aos outros vinte e seis enformadores da obra. É o único dedicado, neste caso a Silvestre Fonseca e é, também, o único datado, desta feita consta: Vila Viçosa / 09-06-1987.

Para além de nos mencionar o óbvio, mas algo só adquire essa característica porque alguém o disse, ou seja: todo o poema é dedicado a algo ou a alguém e todo o poema nasce ou ganha a forma com que se apresenta ao outro, ao leitor, num determinado lugar e numa determinada data, refere-nos da importância da musicalidade no poema.

E esta musicalidade, que as palavras também constróem, para além da sua fundamental carga racional, desperta no outro, no leitor, o lado emotivo.

Como refere Fernando Pessoa, num texto sobre estética, e passo a citar:

“um poema é um produto intelectual, e uma emoção, para ser intelectual, tem, evidentemente, porque não é, de si, intelectual, que existir intelectualmente. Ora a existência intelectual de uma emoção é uma existência na inteligência – isto é, na recordação, única parte da inteligência, propriamente tal, que pode conservar uma emoção.” (8)

Talvez por isso, digamos assim, a segunda parte do livro se inicie com o poema “Cor-cordis”, o espaço referencial do coração, aqui, pelo menos assim o leio, como espaço onde a memória habita, a tal recordação referida por Fernando Pessoa. E este reavivar da memória é bem patente pelo engenhoso processo anafórico presente neste poema.

Aliás, a importância da memória na construção da obra é sublinhada pelo poeta quando este afirma no poema: “As águas”, o seguinte:

“Em vão nada se faz, nada se queima.
Projectam-se partos na memória.” (9)

Em jeito de resumo, diria que “27 poemas” é uma viagem. Uma viagem com amor e morte, que são os grandes temas da poesia, mas onde a própria poesia é, de facto, o tema. Essa enigmática figura que nos surge amiúde referida sob o pronome “você”. Mas toda esta viagem é-nos servida com diversas referências culturais e com o registo crítico e irónico que, quase direi, são a imagem de marca do autor.

Para concluir, porque o poeta não permitiu ao amante viver até ao fim do filme, deixando essa revelação exactamente no dístico derradeiro, afirmando a sua morte na coxia, permitam-me que descubra um porto. Por isso, deixo-vos um poema, um poema que tem como título um espaço bem concreto: “Porto 1”:

“Um dia, a palavra fez-se carne.
Ou sucedeu justamente o contrário?” (10)


NOTAS:

(1) NAVARRO, António Rebordão – 27 Poemas, Edium Editores, S. Mamede de Infesta, 2.ª edição, 2008, P. 24.
(2) LOURENÇO, Eduardo – O poeta na cidade, hoje. in Jornal de Letras. 24 de Setembro de 2008, P. 39.
(3) NAVARRO, António Rebordão – Ob. Cit. P. 12.
(4) NAVARRO, António Rebordão – Ob. Cit. P. 19.
(5) NAVARRO, António Rebordão – Ob. Cit. P. 20.
(6) NAVARRO, António Rebordão – Ob. Cit. P. 20.
(7) NAVARRO, António Rebordão – Ob. Cit. P. 26.
(8) PESSOA, Fernando – Obras Completas III, RBA, 2006, P. 199.
(9) NAVARRO, António Rebordão – Ob. Cit. P. 39.
(10) NAVARRO, António Rebordão – Ob. Cit. P. 35.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

de “No rumor das águas” - 12

o feitiço
da lua

oculto

no ventre
do teu olhar

in “No rumor das águas” (e-book, Virtualbooks, Brasil, 2001). Obra com edição em castelhano numa tradução de Jose Rafael Hernández sob o título “En el rumor de las aguas” (Expresiones, Venezuela, 2002).