quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Sobre “Ausência de mim”, de João C. Santos



Esta obra, “Ausência de mim”, da autoria de João C. Santos é, pelo menos para mim, a confirmação de que estamos perante um autor de excelente nível, do qual já conhecia múltiplos esparsos.

E digo-o porque é raro, como leitor, encontrar um primeiro livro sem que este seja meramente um somatório de textos desligados, sem que exista um fio condutor entre eles. E o que hoje aqui se pode ver não é um mero objecto a que designamos por livro, mas um livro com uma obra lá dentro.

Uma obra madura porque meditada, arquitectada e executada para ser um corpo íntegro ou, como se costuma dizer, com cabeça, tronco e membros.

“Ausência de mim” denota logo pelo título um estado precário do ser, mas revela também a possibilidade da observação do eu, ou dos eus, como se se recorresse a uma espécie de experiência extra-corpórea, algo que muitas pessoas referem, sobretudo quando saem de um estado de coma.

Uma sensação de um outro corpo, de natureza imaterial, em nós existir e do corpo material se ausentar.

Este estado, à falta de melhor termo, de alteridade, ou seja: do que é outro, pode subentender-se logo na abertura e no final se repete, quando o poeta escreve, e passo a citar: 

“o sonho de viver só tem forma quando se sente a morte”(1).

E pouco depois afirma: 

“Vou ao lugar onde deixo o mais importante, a alma”(2)

ou 

“levo morto o corpo nos dias em que acordo a alma”(3).

Há no fundo uma ideia de migração, um sair do corpo físico, mas um sair vigilante, para melhor meditar sobre o próprio eu.

Mas o João C. Santos, na minha opinião, vai mais longe neste seu livro. Parece-me que não pretende um resguardo puramente lírico, baseado no eu ou nos eus, mas uma meditação sobre a própria matéria com que se ergue a arte poética.

Repare-se, logo no quarto fragmento, que ele expressa o seguinte:

“As palavras crescem quando as devoramos, é na procura que se encontra a essência de qualquer arte.”(4)

Quase diria que há neste “Ausência de mim” a presença de Octávio Paz quando este mencionou que 

“o homem é um ser que se criou ao criar a linguagem. Pela palavra, o homem é uma metáfora de si mesmo.”(5)

A outra questão, na minha opinião, relevante neste livro do João C. Santos prende-se com o conceito de missão do intelectual. Enquadro-o na linha do que defende Juan Manuel de Prada, que essa missão é a de polemicar o seu tempo, ou seja. discuti-lo, travar polémica.

De facto, a solidão a que este personagem, o outro do eu, vive é algo que, na sociedade que edificámos, se torna cada vez mais presente, melhor: cada vez mais omnipresente.

A ideia do colectivo esvai-se em cada segundo que passa, o mundo desenha-se egocêntrico, o que conduz, inevitavelmente, à solidão, à ideia de solidão, recorrendo a um lugar comum, mesmo que estejamos no meio da multidão.

Talvez por esse factor, a ausência, ela própria, recebe a função de personagem. Ela é o repto, a voz que sussurra e que grita, dentro do poema fragmentado que João C. Santos ergueu.

Daí a coexistência de um discurso tendencialmente lírico e de um outro quase diria dramático que a introdução de diálogos indicia.

Em suma, sempre com a morte como pano de fundo, este livro mais do que diz, sugere, cria espaço para a necessário reflexão de quem o ousar descobrir.

E, no fundo, não será essa a verdadeira essência de toda a obra de arte?


NOTAS:
(1) SANTOS, João C. - "Ausência de Mim", Edium Editores, São Mamede de Infesta, 2008. P. 9 e P. 73
(2) SANTOS, João C. - Ob. Cit.. P. 12
(3) SANTOS, João C. - Ob. Cit.. P. 23
(4) SANTOS, João C. - Ob. Cit.. P. 13
(5) PAZ, Octávio - in "Citador". http://www.citador.pt/frases/o-homem-e-um-ser-que-se-criou-a-si-proprio-ao-cri-octavio-paz-2597 (último acesso a 19.10.2013). Com a seguinte referência: "Fonte: - O Arco e a Lira".

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