sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Prefácio a "Poesia sem remetente", de Manuela Fonseca



Após ler este “Poesia sem remetente” ainda, naturalmente, inédito, coube-me escrever o prefácio à obra da poetisa Manuela Fonseca. Foi um convite que com agrado aceitei, mas que, espero, não seja criador com este texto de ruído antes da fruição da obra pelo leitor.

Contaminado pelo que conhecia da autora, o romance: “O Último Beijo”, onde estilisticamente nos oferta três registos distintos, mas sábia e habilmente interligados, eis-me perante uma obra, desta feita de poesia, plena de sensibilidade, de emotividade.

Se o romance já me transmitia a existência de uma poetisa, não só pelo facto de haver poemas neste inseridos, este seu novo livro não só confirma, mas como que me deixa naquela situação peculiar: por que gosto, por que há aqui, entre sons, palavras, ritmo, imagens, ideias, sensações, algo que me diz muito mais do que uma boa parte das obras a que até hoje tive acesso?

Diz-me porque aqui há poema com gente dentro, há o sorriso e a lágrima, mas de facto, não mera sugestão; porque aqui há o murro no estômago da indiferença e há o recanto pródigo do silêncio que em si mesmo todo o poema procura; porque há aqui alguém que escreve por ela própria, mesmo que seja o tal fingidor proposto por Fernando Pessoa, como se a sensibilidade que há pouco referi estivesse à flor da voz.

Sente-se nesta obra, nos seus cinco movimentos, o trémulo e o ímpeto dessa voz bem própria de Manuela Fonseca, quase diria em cada dobra do poema. Vive-se nas arestas de uma magia pródiga edificada por palavras a decifrar, plena de sensações, emoções, conceitos, valores, tudo como uma janela aberta sobre o mundo em que vivemos, sobre este mundo regido por horários, janela essa que nos mostra a possibilidade da poesia ser agente de mudança.

No entanto, e sobretudo, há a presença forte de um olhar, de um olhar sensível, não sobre o tal mundo, mas, essencialmente, sobre nós, mesmo sobre quem me lê exactamente neste instante. Exagero de prefaciador?, que seja, o leitor no final o dirá.


Coimbra, 30 de Agosto de 2010


in FONSECA, Manuela - "Poesia sem remetente". Temas Originais. 2010
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