segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Sobre "Meditações sobre a palavra", de Alvaro Giesta



No início do ano de 2012, surge, sob chancela da Temas Originais, o segundo título da autoria de Alvaro Giesta, “Meditações sobre a palavra”, com o subtítulo de “um tributo a Ramos Rosa, o poeta do presente absoluto”.

Antes deste volume, o autor editara “Onde os Desejos Fremem Sedentos de Ser”, obra em que se estreara a solo, este publicado pela Corpos Editora, decorria o ano de 2011.

Posteriormente, desta feita através das Edições Vieira da Silva, também em 2012, veio a lume “Há o silêncio em volta”.

Destas três obras, onde se nota a oficina onde o poeta burila o trabalho a ser, há, na minha perspectiva, a destacar o título que menciono primeiramente e, sobre o qual, me debruçarei no presente texto.

Em “O poeta”, labor inserido anteriormente em “Cantoário (Antologia)”, datado de 2000, e que ressurgiu em “Prosas seguidas de Diálogos”, António Ramos Rosa escreve o seguinte:

“Ao contrário do que muitos pensam, o poeta não escreve a partir de imagens formadas na mente ou na imaginação. Essas imagens surgem ao nível da escrita, embora correspondam a um imaginário latente no inconsciente do poeta. Daí a primazia do poema como criação originária”. (1)

Um pouco mais à frente, refere que:

“o que determinava, essencialmente, a sua poesia, era a própria criação poética”. (2)

Alvaro Giesta, logo na abertura deste seu tomo, numa nota de autor, avisa o leitor que

“O homem, ao criar, põe no que cria engenho e arte sem estar sujeito a qualquer entidade inspiradora”. (3)

Talvez seja este, também, um dos motivos de o autor abdicar do acento agudo no nome que utiliza para assinar as suas obras, indicando-nos assim de que não é um poeta esdrúxulo, isto é, no sentido de complicar o efeito do seu acto de escritura, antes pretendendo que este surja aos olhos de quem o lê como cristalino, guardando para si, enquanto agente exclusivo do acto criador, a carga inerente de um quase estauróforo.

Por seu turno, este livro, “Meditações sobre a palavra”, recebe, tal como antes referi, como subtítulo “um tributo a Ramos Rosa, o poeta do presente absoluto”.

Tenho como ideia sobre a produção poética de António Ramos Rosa a de uma espécie de poeta solar, daquele que soube entender a sombra, tocar no corpo e olhar para a luz, trazendo de volta o caminho, através da palavra, da aproximação a todas as coisas.

Talvez por isso a palavra em António Ramos Rosa nos apareça como sendo única e inaugural, como produto, tal como nos sugere Alvaro Giesta, de um presente absoluto.

Esta sequência: sombra, corpo e luz; não tem que ver, no imediato, com o Mito da Caverna, de Platão, embora também se pudesse ir por essa via, dado que, no fundo, estamos a falar sobre a possível forma de alcançar o conhecimento, também este na medida do possível, de todas as coisas do mundo, antes tem que ver com o que António Ramos Rosa menciona, e cito:

“O sol é todo o espaço
e toda a vida é sol
dentro de nós
fora de nós

O sol é o único deus
visível” (4)

Mas mais do que um deus visível, mais do que o rosto, nós sabemo-lhe o nome. E sabemo-lhe porque soubemos construir uma palavra que o representasse em nós, porque o sol em si, tal como um grão de areia, ou qualquer outra coisa, não carece de palavras, simplesmente são, mas não o são, no entanto, para nós, na medida em que sentimos a necessidade de indagar sobre todas as coisas do mundo e, para que tal ocorra, precisamos das palavras.

E é exactamente isto, na minha leitura, naturalmente, o que está em causa no presente volume de Alvaro Giesta, “Meditações sobre a palavra”, o saber que a palavra em si pode e deve ser mais do que a palavra para cada um de nós, inclusive para o próprio, daí a utilização da linguagem poética, registro esse onde a palavra adquire valores diversos aos que comummente lhes são atribuídos.

A palavra é aquilo a que, colhido como sombra, urge saber-lhe do corpo, quase direi, tal como Teixeira de Pascoaes, que

“a Palavra é uma Criatura; tem, portanto, a sua anatomia e a sua psicologia, dignas do amor, do respeito e carinho que merece tudo o que vive” (5)

e, após tomarmos consciência de tal, saber que, se há sombra, se há corpo, algo lhe toca, algo permite o seu desenho, isto é, algo o afaga com luz.

Alvaro Giesta traça-nos o poema partindo, porque o demanda, do que radicalmente nomeia a coisa, que em sombra nos é apresentada, para o trabalhar, retirando-lhe os excessos, levando, direi, ao osso, ao mínimo, ao essencial para que o corpo, ele próprio, na palavra se possa vislumbrar para, posteriormente, saber da via, o ter consciência que o poema pode e deve ser luz, citando-o:

“e o conhecimento a iluminar
quando
do seio da terra nasce a criatura” (6)

A palavra deve ser procurada porque

“a palavra é!
está
no altar-mor que lhe é devido” (7)

para que o poema, tal como uma escultura, que nasce do ventre de uma pedra em bruto, seja o revelar do corpo que nessa mesma pedra estava oculto.

Tal efeito só é possível se o artesão dominar o uso dos artefactos e souber das próprias propriedades da matéria a trabalhar.

Creio que estamos perante um poeta que demanda, dia após dia, no recato da sua oficina, o desvelar dos segredos do seu mister e esta obra, porque medita sobre matéria e utensílios, diz-nos exactamente isso. E o seu autor, mui certamente, sempre que um dos seus objectos se descobre no seu corpo exacto, imitará a sombra quando esta se inclina

“à passagem da palavra acabada
de nascer”. (8)


NOTAS:
(1) ROSA, António Ramos – Prosas seguidas de Diálogos. 4 Águas Editora. Faro. 2011. P. 22.
(2) ROSA, António Ramos – Ob. Cit. P. 22.
(3) GIESTA, Alvaro – Meditações sobre a palavra. Temas Originais. Coimbra. 2012. P. 9.
(4) ROSA, António Ramos – in Rua Larga, Revista da Reitoria da Universidade de Coimbra. Número 15. Universidade de Coimbra. Coimbra. Janeiro de 2007. P. 67.
(5) PASCOAES, Teixeira de – in “Observatório da Língua Portuguesa”. http://observatorio-lp.sapo.pt/pt/ligacoes/sitio-de-interesse1/historia-d-lingua/teixeira-de-pascoaes (último acesso a 01.09.2013). Com indicação bibliográfica: “Teixeira de Pascoaes, «A Fisionomia das Palavras» (1911), in A Saudade e o Saudosismo, Lisboa, 1988, p.18.
(6) GIESTA, Alvaro – Ob. Cit. P. 51.
(7) GIESTA, Alvaro – Ob. Cit. P. 31.
(8) GIESTA, Alvaro – Ob. Cit. P. 30.

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