sábado, 19 de outubro de 2013

Sobre “Onde os pássaros fazem silêncios”, de Lita Lisboa



Numa altura em que o ofício poético, a edição de poesia, a divulgação, a própria distribuição digna desse nome deste género literário se constitui à maneira de um autêntico gueto, de uma espécie de raça de aves raras, e este rara sequer com o valor de precioso, mas de algo de estranho, alienígena, fora deste mundo dito, ou tido, como realidade, é bom, reconfortante encontrar alguém assim no nosso caminho.

E digo isto porque muito provavelmente, tal como escreveu António Rebordão Navarro no seu “27 Poemas”, se um destes dias a Lita Lisboa for apanhada na Rua da Sofia, na cidade de Coimbra, considerará também como insulto o termo: poetisa.

E porquê? Porque Lita Lisboa vai, procura, divulga, não só o que a ela mesmo diz respeito, mas a tudo, ou quase, que lhe vem parar às mãos. Não se submete a esse processo do sorriso, da palmadinha das costas, processos geralmente vazios de conteúdo, falsos, com o único propósito de ficar bem aquando da passagem da câmara fotográfica, antes promove valores de frontalidade, de, no fundo, amizade pura, bem como não se remete ao silêncio ou a ouvir uma única versão, antes procura saber do outro lado da questão.

Ou seja: antes de tudo, é pessoa. Depois, sim, depois tudo o que os seus passos souberam conquistar. Porque, e cito a poetisa: 

“O clarão cega,
adormece os sentidos”. (1)

Estes valores, este estado de ser e estar, estavam bem patentes na sua primeira obra, mas esta supera-a, na medida em que há um criar de distância, um observar sobre, não um observar dentro, tal como ocorre em “Fragmentos de mim”. Permite-lhe ver o tal claramente visto camoneano. Nas suas palavras: 

“vejo a noite chegar em pleno dia
A vida despida e sem graça,
E já nem o luar, tem poesia.” (2)

Repare-se nesta breve citação a inclusão gráfica de um sinal de pausa subvertendo a regra.

Tal reposicionamento no seu acto de escritura permite-lhe obter impressões não contaminadas pelo que a envolve, antes lhe dá a capacidade de melhor obter os ecos do mundo, depurá-los ao seu próprio ritmo e, assim, pelas necessárias palavras, construir o seu poema, no fundo, 

“Apanhar
o sol que nos enxuga as lágrimas...” (3)

E só a distância nos permite retirar o excesso das impressões primeiras.

Quem escutar Lita Lisboa a ler um poema alheio verificará que o ritmo que imprime à leitura, não é de facto o ritmo gráfico ou ortográfico de quem o escreveu. A Lita cria pausas, adapta, obriga o poema a tornar-se de facto seu. Quem escreve sabe que só vale de facto a pena partilhar, porque de um acto de partilha se trata, o que se cria se, do outro lado, alguém tomar posse, isto é: não se tornar indiferente o que se produziu.

E estes factores tornam a sua cadência cada vez mais autónoma, mais própria, fruto da leitura, também da contaminação pelo outro, faz com que os seus poemas adquiram uma mais valia: a da autenticidade.

E é essa autenticidade que me cativa no que a Lita Lisboa escreve, melhor: ao que eu escuto quando a leio.

Se há por um lado, uma espécie de grito, de alerta, de chamada de atenção a esta nova forma de encarar o mundo, de estar com o outro, por outro há uma construção rítmica que nos diz da necessidade de ponderação. Raro é o poema onde se sente a necessidade de acelerar a leitura. Citando. 

“Do esplendor da natureza,
colho tudo o que o olhar vê
e construo teias de trinados.” (4)

Lita Lisboa convida-nos através dos seus poemas para a ágora, coisa bem fora de moda nos dias monocórdicos que correm, para o debate franco, honesto, sem rodeios.

Há neste seu novo título uma busca de uma escritura mais cristalina, talvez a procura do traço que a sua outra vertente artística, a pintura, nos traz: aquele instante ofertado pela paisagem, aquela luz que desenha a silhueta, em suma: a sugestividade pelo real configurada naquele instante que nos coube em sorte viver.

Creio que a escrita lhe dá o tal sonho, o tal objectivo indiciado em título. Aquele que só quem desenha o voo é capaz de saber que o seu limite é para além do limite que lhe é imposto socialmente e tem a veleidade, sim, porque de veleidade, de ousadia se trata, e é capaz, não direi de tocar, que, tal como nos ensinou Antonio Machado, não há caminho, o caminho faz-se caminhando, mas de o sentir, de o saber próximo, provável e constantemente próximo, e isso é relevante: é sinal que há futuro.

“Onde os pássaros fazem silêncios” diz-nos exactamente dessa dimensão, do meramente humano, na medida em que o humano deve ter em conta um único valor: o valor do ser.

Para concluir: à poetisa direi somente isto, não há duas sem três, mas que o terceiro se mantenha fiel, fora das regras do cânone, mas dentro das regras da sua voz.


NOTAS:
(1) LISBOA, Lita - "Onde os pássaros fazem silêncios", Temas Originais, Coimbra, 2011. P. 25
(2) LISBOA, Lita - Ob. Cit., P. 24
(3) LISBOA, Lita - Ob. Cit., P. 52
(4) LISBOA, Lita - Ob. Cit., P. 42
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