quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Sobre “Amar em Chão de Mar”, de Dalila Moura Baião



Um dos grandes críticos e analistas do fenómeno literário, sobretudo da Poesia, na minha perspectiva, Ezra Pound, num dos seus mais conhecidos ensaios, escreveu sobre a arte poética o seguinte, e cito:

“A função mais sublime da arte consiste em preencher a mente com uma profusão de sons e imagens que ordenem a vida intelectual.”(1)

Se a esta lição adicionarmos o que refere T. S. Eliot, quando alude ao jovens autores do seu tempo, e cito:

“demonstram ter aberto um livro de Withman: perceberam a disposição dos versos sobre a página impressa, mas não encontro explicação sobre o que os levou a escrever a maior parte dos poemas em «versos livres» (possivelmente o boato de que o verso havia sido libertado).”(2)

É nesta confluência que situo o que esta obra, “Amar em Chão de Mar”, tem como base para a sua escritura. Nesta, temos a tal profusão de sons, de imagens, mas também temos versos livres, melhor: versos livres, mas na medida exacta.

Embora não exista um padrão ao nível da mesura do verso em si, há, de facto, um padrão ao nível da construção do corpo poético: uma boa parcela dos poemas que enformam esta obra têm como base uma padronização hexamétrica ou heptamétrica.

Tal é fundamental para que o outro, aquele que é não só o destinatário do objecto de arte, mas o verdadeiro detentor desse mesmo objecto, pelo auxílio da componente emotiva, que só a musicalidade, matriz de qualquer poema, desperta, possa aceder, mas aceder de facto ao que, no fundo, lhe pertence.

A poetisa trabalha o seu ofício para que o fruidor da obra possa assistir, e sentir, citando a autora:

“O silêncio encrespado da palavra a brotar”(3)

Repare-se que são dois hexâmetros que constroem este verso de treze sílabas.

E é no silêncio que a palavra brota, mas também é para o silêncio que a palavra, em poema, pretende regressar ou não fossem palavras que, como escreve Dalila, 

“sabem amar em chão de mar”(4).

Para além da forma, há a voz, a voz que diz. Sendo certo que o que o poeta diz, qualquer um, pouco me interessa, porque o que me interessa é aquilo que o poeta me diz. E essa é a visão que, também aqui, leio, passo a citar:

“Seres-te assim, o viajante
Que em trépidas caminhadas
Me procura...

(...)

Seres o poema, onde te li
Palavra breve
Sonhada em ti!”(5)

E esta palavra, sonhada em mim, diz-me de afectos. Creio ser essa a quase diria condição essencial para a feitura não só deste seu livro, mas também do seu anterior, “Varandas de Luar”, ou não fosse a arte em si: 

“Poesia ancorada no meu coração”(6)

E este é o verdadeiro porto, e estaleiro, para a partida, e construção, do poema. Tal visão não nos é dada de forma fácil, antes pelo contrário. Entra-se na obra e temos um aparente isomorfismo, onze poemas que nos sugerem o formalismo do soneto. Há, no fundo, uma aparente ordem, mas essa ordem vem de onde?, nasce como?

A resposta surge-nos no segundo ciclo, o mais longo do livro, isto é, do caos, também aparente, em formas, ritmos, temas variegados, mas que se interligam como se fossem fotografias de uma vida desordenadas, impressões de instantes.

E a resposta é esta: há que descer até aos alicerces da casa, o terceiro ciclo, para que a poetisa me diga do nascer, da génese da obra.

E que signo mais forte do nascer que a palavra mãe? E que signo mais forte do afecto que a palavra mãe? Que signo mais forte para iniciar a reconstrução, a colocação exacta das peças do puzzle que fomos coleccionando, agora descobertos em retalhos de ternura para que a manta se faça e nos ordene, tal como referia Pound, a vida intelectual.

NOTAS:
(1) POUND, Ezra - "Ensaios", Pergaminho, Lisboa, 1994. P. 46
(2) ELLIOT, T.S. - "Ezra Pound", in POUND, Ezra - "Ensaios", Pergaminho, Lisboa, 1994. P. 26
(3) BAIÃO, Dalila Moura - "Amar em Chão de Mar", Temas Originais, Coimbra, 2010. P. 59
(4) BAIÃO, Dalila Moura - Ob. Cit.. P. 118
(5) BAIÃO, Dalila Moura - Ob. Cit.. P. 56-57
(6) BAIÃO, Dalila Moura - Ob. Cit.. P. 88

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