quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Sobre "Ao Povo do Mundo", de Fernando Morais

 

Em 2010, sob chancela da editora conimbricense Temas Originais, surge a obra “Ao Povo do Mundo”, da autoria de Fernando Morais, poeta e tradutor, com vasta obra editada.

Este livro abre com chave de ouro. Um verso, aparentemente simples, aliás um heptassílabo, bem ao jeito do que toca a alma do povo, o que trabalha e canta o trabalho, o que sofre e canta o sofrimento, o que sorri e canta o sorriso.

Diz o poeta nesse verso inaugural, e cito:

“Hoje estou aberto ao mundo.” (1)

Apetece-me dizer o sinal ortográfico, ponto final.

De facto, este volume traz-nos, não direi a tal catarse anunciada em prefácio assinado por João Arezes, que a vida do homem que está por trás do autor não conheço para além da sinopse que consta na contracapa, mas sinto que este livro é uma janela, um miradouro onde habita um sonho.

Como escreveu John Lennon:

“Tu podes dizer que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Espero que um dia te juntes a nós
E o mundo será só um” (2)

Este “Ao Povo do Mundo” apresenta-se, pelo menos a mim, como a tal janela, uma verdadeira janela onde o que diz e o que toma posse do que se diz, trocam amiúde a posição de observação do mundo, possibilidade essa que só a autêntica poesia, como meio de comunicação do conhecimento, capaz de nos aproximar da real face de todas as coisas, pode, de facto, efectuar.

Há, portanto, neste poemário osmose, mas, também, simbiose. Comunhão plena de princípios, mas, sobretudo, quase diria de enxadas com que se vão cavando a terra para o repouso da semente e para a colheita do fruto.

O poeta e o leitor viajam por entre olhares, não olhando, mas vendo o que há a ver. Como exemplo, três instantes onde esse olhar se demora: d’”A Terceira Idade” onde, e cito:

“Um velho está curvado
sua cabeça pende para o chão
e quando caminha, os seus ossos rangem;” (3)

passando pelo único título não maiusculado deste livro, e que significado a este atributo se pode dar, “Aldeias que já não há / mentalidades que ainda temos...”, onde se pode ler:

“Já não há aldeias destas
onde quem manda é mandado
e quem sofre leva um prémio
pelos sábados de sol e sombra” (4)

até à viagem, ela própria, melhor: “Viagens” onde, refere o poeta, ou será o leitor?:

“não me perdi nem me achei
(...)
sentei-me lá no alto
satisfeito do que vi” (5)

concluindo:

“(...) só vi montes...” (6)

Esta é a perfeita definição do que é palpável, do horizonte, mas, e talvez sobretudo, do que há para além do horizonte, aquilo que está para lá do mero observável, repito:

“sentei-me lá no alto
satisfeito do que vi”. (7)

Trata-se, a meu ver, de um tratado este “Ao Povo do Mundo”, que nasce exactamente sob epígrafe de Neruda, aquele que escrevia para o povo, mesmo que este não o entendesse, para nos desvelar o mundo íntimo e exterior, consoante o ensejo de quem o desbravar.

Talvez viagem de vida, a própria, mas essencialmente a construção de uma visão do mundo que, tal como diz o poeta, e é fundamental seguir esta lição:

“Quando os meus pés estão magoados
eu desço à realidade” (8)

porque, tal como afirma Fernando Morais,

“gosto tanto dos meus pés, cansados, quanto gosto do real” (9)

Escuto aqui Antonio Machado com o seu conhecido verso

“se hace camino al andar”. (10)

E esta obra faz-se exactamente assim: caminhando e observando cada metáfora como única.

NOTAS:
(1) MORAIS, Fernando - Ao Povo do Mundo, Temas Originais. Coimbra. 2010. P. 11.
(2) LENNON, John - Canções (1968-1980), Centelha. Coimbra. P. 65.
(3) MORAIS, Fernando - Ob. Cit. P. 20. 
(4) MORAIS, Fernando - Ob. Cit. P. 29.
(5) MORAIS, Fernando - Ob. Cit. P. 73.
(6) MORAIS, Fernando - Ob. Cit. P. 73.
(7) MORAIS, Fernando - Ob. Cit. P. 73.
(8) MORAIS, Fernando - Ob. Cit. P. 51.
(9) MORAIS, Fernando - Ob. Cit. P. 51.
(10) MACHADO, Antonio - In "Poemas del alma", http://www.poemas-del-alma.com/antonio-machado-caminante-no-hay-caminho.htm (último acesso a 27.09.2013).


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