sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Sobre “Aprendiz de Poeta”, de Emanuel Lomelino



Seguindo a lição utilizada no seu primeiro livro, o poema iniciador da obra titula-a, isto é: ao “Amador do Verso”, onde se lê, e cito:

“a poesia não traio, sempre lhe fui fiel
palavra de aprendiz de poeta”(1)

curiosa esta referência, aprendiz de poeta, adiante,

sucede este “Aprendiz de Poeta”, obra editada, tal como a anterior, em 2010, pela Temas Originais, que, considero um pulo bem acentuado no que o Emanuel Lomelino faz chegar ao leitor sob a forma do livro. São dois, à data em que escrevo, bem sei, mas é, na minha opinião, algo a considerar.

Digo-o porque, no seu primeiro livro, notava-se já a verdadeira semente de toda a escritura, isto é: a leitura; mas, também, já era notória uma demanda de um registro próprio.

Existia o amador, o que ama a coisa, mas que desta não se afastava o suficiente para colher a essência da sua própria respiração. O acto amatório muitas vezes provoca uma proximidade que, quase diria, sufoca, mesmo que essa sensação possa eventualmente ser até agradável.

No entanto, nesta sua nova obra, “Aprendiz de Poeta”, há uma novidade, um registro, de facto, próprio, autêntico, verdadeiro, porque do próprio autor, que sabe, porque desta toma, não sensível, mas conscientemente, que é a leitura a geradora da obra a ser.

Desta forma, não será de admirar que continue a escutar, como mero exemplo, António Franco Alexandre, sobretudo o de “Moradas”, de uma forma mais abrangente, ou de Ruy Belo pela forma coloquial com que amiúde contamina o seu fazer poético.

Mas não encontro aqui o que afirma o próprio poeta, e cito: 

“poeta imaturo”(2);

a não ser que este imaturo signifique, e aí concordo, como aquele que sempre encontra na coisa o catalisador do próprio espanto e, por isso, se sente sempre perante a novidade, e, assim, matura constantemente essa mesma coisa com o intuito de obter desta a maior valoração possível.

Aí ambos, melhor, todos os que escrevem estão, como se soía dizer, no mesmo barco, navegando, tal como afirma Emanuel Lomelino, 

“um rio
(...) agarrado às suas crinas”(3),

imagem esta de força vital porque nos traz uma espécie de serena liberdade.

Um detalhe relevante, que já era também vislumbrável na sua primeira obra, é, tal como indiciam os ecos poéticos acima referidos, sobretudo Ruy Belo, o alongar do verso, quase sempre superior ao decassílabo.

Neste “Aprendiz de Poeta” há a aproximação ao apuro técnico de construção deste género de mesura vérsica, onde a cesura se encontra cada vez mais no local devido, ou não fosse aprendiz, aquele que inicia o processo de recolha e interiorização dos rudimentos do seu ofício, no âmago do que escreve, melhor do que diz.

Trata-se portanto, na minha opinião, já não só da tal procura de registro pessoal, que antes referi, mas de uma demanda para que esse mesmo registro seja cada vez mais construído de forma a que chegue ao outro com uma maior eficácia ou, como refere o poeta, que nisto o poeta é que sabe, e pode clarificar:

“Escrevo por não poder falar
Todas as palavras que quero” (4)

Isto é, tendo consciência de que o acto poético é essencialmente fala, voz, e sobretudo canto, assume-se aqui como o tal aprendiz.

É, sem dúvida, um título que assenta, tal como refere o povo, como uma luva.

Numa abordagem ligeira a esta obra, muito provavelmente, dir-se-á: essencialmente lírica. Se é um facto que o Eu está, quase direi, omnipresente, também é verdade que esse Eu, por vezes, muitas vezes, se vê, como se se projectasse no mundo e representasse um outro papel, ou, mais concretamente, um papel outro, um papel produzido pela imaginação, ou seja, transfigurando o Eu lírico num Tu dramático, que leva o poeta a dizer:

“Por vezes nem eu me reconheço
(...)
Afasto-me do mundo conhecido”(5)

Mas a questão fulcral é a seguinte: que papel procura desempenhar o aprendiz, por que demanda entre palavras fundadas no Eu, mas que é o Eu Outro que se revela em cada verso?

Bom, para que não seja suspeito, citarei Vitorino Nemésio quando este escreve:

“Como em toda a actividade, é difícil surpreender exactamente o grau de expressão em que a categoria do poético desfalece ou está ausente sem que desapareçam os requisitos formais da arte poética em acção. Sobre o que define o poético, frente ao metafísico, estamos todavia mais seguros. Se o pensamento filosófico apreende a realidade na relação do juízo, o que se possa chamar de pensamento poético indica-a ou mostra-a pela mediação de uma realidade segunda, substitutiva ou simbólica, que a razão não traduz absolutamente nos seus termos, mas que verbalmente é dada com a plenitude da intuição.” (6)

É neste plano que leio esta obra e, sobretudo, o futuro da obra do Emanuel Lomelino. Ou não fosse, e cito o poeta:

“A poesia
(...)
A minha tábua de salvação”(7)

E que outra salvação há senão a da reconstrução do nosso próprio mundo, desta feita reconstruída pela via, tal como alude Nemésio, segunda, substitutiva ou simbólica, tal como considero ser regida a escrita de Emanuel Lomelino, antes, agora e sempre, amador do verso, e aprendiz, porque peregrino pelos caminhos da palavra, da poesia.


NOTAS:
(1) LOMELINO, Emanuel - "Amador do Verso", Temas Originais, Coimbra, 2010. P. 7
(2) LOMELINO, Emanuel - "Aprendiz de Poeta", Temas Originais, Coimbra, 2010. P. 9
(3) LOMELINO, Emanuel - Ob. Cit. P. 9
(4) LOMELINO, Emanuel - Ob. Cit. P. 40
(5) LOMELINO, Emanuel - Ob. Cit. P. 66
(6) NEMÉSIO, Vitorino - Poesia Vol. I - 1916-1940, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Lisboa, 2006. P. 120
(7) LOMELINO, Emanuel - Ob. Cit. P. 59

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