quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Prefácio a "Da humana condição", de José-Augusto de Carvalho



Escrever sobre a Poesia de José-Augusto de Carvalho é como se me sentasse à beira de uma janela e observasse o Alentejo. Uma janela imaginária, privilegiado miradouro, que abarcasse esse pedaço, tantas vezes esquecido, do nosso país: Portugal.

Imagino que um pássaro viria e com ele outros se acercariam de uma qualquer árvore que ali surgisse. Entoariam o cante nobre, pleno de orgulho, de liberdade e resistência.

De súbito, a planície onde uma seara anunciar-se-ia grávida de pão e a ceifeira dobraria o seu corpo e repetiria o gesto, o movimento e a dor de saber que o farto pão, que ali iniciaria o seu caminho, iria para outra mesa que não a sua.

Também o sol acudiria ao chamamento deste meu mirante e experimentaria o sabor da cal. Observaria então como as suas tranças chicoteavam os corpos dos ganhões, que nada possuíam de seu, somente o corpo, a força que jorrava do corpo e os cingiu ao labor por fraca jorna.

Mas também a sombra, aquela que a si própria se inventa sob um chaparro que, como criança, brinca com o sol, a dureza do ofício e seu escasso retorno, me visitaria. Não deixaria de o fazer.

E, apesar de tudo, haverá vinho, pão, azeitona e haverá a magia de uma esperança que será mais forte do que os grilhões, o latifúndio, o dinheiro. 

Uma esperança que canta nas dobras do poema e resiste, porque insiste, em ser exactamente o que é, como se dissesse, de cada vez que olho para esta minha janela, que Eufémia, como uma vez escrevi, nunca será Efémera.

É isto o que sinto quando revisito a Poesia de José-Augusto de Carvalho. 

No entanto, esta é a minha imaginação a exercer a sua influência, a criar o espaço concreto onde creio que o poeta elabora o seu ofício. Mas, apesar de tudo, não deixa de ser um espaço ideal para o erigir de um discurso poético que me faz ir do particular para o todo, do todo para o particular e que me obriga a persistir a desviar o meu olhar para esta minha janela onde não é o Alentejo o que se visiona, mas o mundo, o mundo com os seus senhores e os seus servos.

É o recurso engenhoso e com arte da metonímia o que se pode descobrir a cada passo da sua obra.
José-Augusto de Carvalho apresenta-nos, em todo o seu esplendor, a humana condição, que quantas vezes fazemos de conta não ver, mas que existe e invade, enquanto jantamos e lançamos comentários que, amanhã, poucos deles restarão na nossa memória, porque a vida é feita no desespero de cumprir a hora, exagerando, ou talvez não, de cumprir o segundo.

Este tomo não deve, não pode passar indiferente. É Poesia no seu esplendor porque habita ao nosso lado e não devemos, não podemos manter o olhar cerrado. Isto, claro, se desejarmos, de facto, um mundo melhor. Se não for para nós, que seja para aqueles que nós gerámos.

Talvez este “A humana condição” constitua uma bela oferenda para todos quantos afirmam que a Poesia é inútil. Escrevo-o porque trata-se de um volume onde, repetindo as palavras enformadoras deste título, a condição humana se desnuda perante o nosso olhar.


Coimbra, 15 de Janeiro de 2008


in CARVALHO, José-Augusto de - "Da humana condição". Edium Editores. 2008

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