terça-feira, 5 de maio de 2015

de "Nove ciclos para um poema" - 5.º Ciclo


V

Canto as mãos que foram escravas
nas galés

Julião Soares Sousa

1.

aos vindouros
deixo as anotações deste meu tempo
e do tempo
que me moldou

vestígios
da minha memória

porque é a única
a verdadeira
herança que importa deixar

2.

habita na minha voz
o arrastar das correntes
o rumor da sanzala

mas canto
canto as aves o mar
com a música da terra
onde deixei o meu olhar

3.

e canto as lágrimas
punhais cravados na face
do meu povo

e canto a esperança
o riso das crianças
do meu povo

4.

conheço o silêncio
das horas amargas

as mãos rentes à face
ocultando o olhar

mas sei também das sílabas
que em música se erguem das cinzas
no orgulho de resistir

in "Nove ciclos para um poema" (edium editores, Matosinhos, Portugal, 2008); "Viagem pelos livros" (Escrituras, São Paulo, Brasil, 2011) - Prémio Literário da Lusofonia - 2007, organizado pela Câmara Municipal de Bragança 
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