quarta-feira, 6 de maio de 2015

de "Nove ciclos para um poema" - 6.º Ciclo


VI

Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.

José Craveirinha

1.

guardo os gestos os nomes
os utensílios

trago-os na algibeira

são cinzas que as mãos remexem
restos
desta imensa fogueira que é a vida

2.

escuto as sombras
que se arrastam pelo pó

ardem
no mistério das horas
que virão

3.

nada em mim é efémero
tudo permanece
rente à pele

queima
com os passos dados
na invenção do meu próprio caminho

4.

sou filho fruto desta árvore
que se entrega
sem rancor
aos lábios do fogo

meu destino é arder
aprender
a língua secreta das sementes
que em cinza em mim germina

in "Nove ciclos para um poema" (edium editores, Matosinhos, Portugal, 2008); "Viagem pelos livros" (Escrituras, São Paulo, Brasil, 2011) - Prémio Literário da Lusofonia - 2007, organizado pela Câmara Municipal de Bragança 
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