sábado, 8 de novembro de 2014

de "Afluentes do poema" - 8


Ao colo, uma criança dorme. A mãe
afaga-lhe o cabelo. O poeta abre
o saco da metáfora e sente a
fria e triste impotência de não
ter, por entre as palavras, uma imagem
solar que lhe descreva o brilho que
habita fundo no íntimo do olhar.
Recordo o terno afago, o doce gesto
de minha mãe. Seu rosto iluminado
enquanto me embalava para ir brincar
com o sono, para mergulhar
no sonho que em seu canto me promete.
De súbito, as palavras surgem. Trazem
o desenho do gesto, o esboço de
um sorriso, o calor da mão que tece
a candura da manta que me tapa
e que, serenamente, minha mãe
vai, quando me adormece, aconchegar.

in "Afluentes do poema" (e-book, Virtualbooks, Brasil, 2006)
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