segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Sobre “O dia em que te recordei”, de Rita Cipriano




Como Jacques de La Palisse, direi o seguinte: Escreve-se porque se tem memória, mas escreve-se para preservar essa mesma memória. Neste jogo em que a memória surge como princípio e fim, e a escrita, quer na sua vertente criativa, quer na sua vertente de usufruto, nos aparece como meio, é onde esquadro esta obra da autoria de Rita Cipriano.

Nela há uma digressão, quase diria sob a égide da filha de Urano e Gaia, a titânide Mnemosine, que é, segundo a rica mitologia helénica, a personificação da memória. 

Mas é algo mais do que essa personificação. Mnemosine é a mãe, sendo Zeus o pai, das nove musas, aquelas que inspiraram os artistas e, também, os astrónomos e os filósofos.

Digo isto porque nesta obra há a presença constante da memória, quer declarativa (episódica e semântica) quer inclusive a não declarativa.

Assim, por este livro encontramos vestígios da recolha, do guardar e sobretudo, naturalmente, do evocar. 

Ou não fosse a memória o utensílio mais precioso para o conhecimento.

Talvez por isso, porque é base do conhecer, Rita Cipriano inicie este seu livro afirmando: 

“Gostava de conseguir escrever-te tudo o que escrevo e saber dizer-te o que te digo de outra forma”. (1)

A escrita, tal como a memória, evolui, constrói-se. É um processo. Mas este tem como intuito, tal como conclui a autora: 

“escrever todas as coisas bonitas que esqueço e não te esquecer nunca.”(2)

Há portanto a necessidade do registo, o tal preservar que há pouco referi.

Mas não é só a razão, ou a tal componente declarativa, a pesar nesta digressão que a autora faz neste dia, o dia, não um dia. Ela move-se, quase diria intuitivamente, como se fruto da memória não declarativa se tratasse, erguendo os escombros que a ausência semeou, onde, tal como escreve:

“querer era esconder-te aqui, preso ao peito e ao passado que agora devora”(3)

e tudo porque: 

“trazer-te era senão o vazio com que te encontrei”.(4)

É portanto, naturalmente na minha leitura, a presença de algo, quase diria, subconsciente. Algo que acordou porque foi necessário utilizá-lo. Em ambos os casos citados surge-nos como mecanismos de catarse. 

Se no primeiro é a dor presente, uma ferida (passado que agora devora), no segundo é uma espécie de readormecimento, uma cicatriz, sob a forma de vazio.

Mas há um perigo no reavivar da memória: há que reviver intimamente cada instante reanimado e mesmo que neste se operem transformações, deste não escapamos, tomando de novo consciência, como refere Rita Cipriano:

“Enganados, pensamos que deixámos o único lugar conhecido.”(5)

Comecei afirmando que “Escreve-se porque se tem memória, mas escreve-se para preservar essa mesma memória”. No entanto, Rita Cipriano traz-nos também o oposto, o olvido, melhor: o supremo olvido, a morte.

A morte explícita e implicitamente acompanha-nos por todo o livro. Vem, quase diria, ao lado da memória. Ambas partilham da respiração, da cadência com que a autora elaborou esta narrativa, melhor este poema.

Diz-nos que 

“Conhecer uma cidade é conhecer-lhe a morte”(6) 

(torna-a portanto um acto de indagação) 

ou refere 

“A tragédia das coisas nasce da memória das coisas poucas”(7)

dando como exemplo imediato 

“da vista da casa para o cemitério”(8)

(algo mais concreto, embora aqui como aspecto de associação) 

ou como algo sentido, vivenciado como

“faço os dias evaporarem como fumo”(9)

(a ideia de morte em vida) porque, tal como nos diz, 

“só para a morte existe tempo”(10)

até a uma espécie de esperança em que a morte se torna início de um novo ciclo, de uma nova construção de memória quando escreve: 

“até que o meu mundo acabe, a história termine, dando lugar ao que nunca conheci”.(11)

E digo esperança apesar de a autora constatar que tudo foi porque: 

“ceguei cedo, ao que nunca cheguei porque encurtei o caminho, às flores e às cartas que nunca recebi porque as arranquei todas”(12),

mas o certo, certo é que no fim de tudo, como escreve Rita Cipriano:

“Sobras tu”(13).


NOTAS:
(1) CIPRIANO, Rita – “O dia em que te recordei”. Temas Originais. Coimbra. P. 7
(2) CIPRIANO, Rita – Ob. Cit.. P. 7
(3) CIPRIANO, Rita – Ob. Cit.. P. 13
(4) CIPRIANO, Rita – Ob. Cit.. P. 14
(5) CIPRIANO, Rita – Ob. Cit.. P. 17
(6) CIPRIANO, Rita – Ob. Cit.. P. 11
(7) CIPRIANO, Rita – Ob. Cit.. P. 25
(8) CIPRIANO, Rita – Ob. Cit.. P. 25
(9) CIPRIANO, Rita – Ob. Cit.. P. 32
(10) CIPRIANO, Rita – Ob. Cit.. P. 34
(11) CIPRIANO, Rita – Ob. Cit.. P. 34
(12) CIPRIANO, Rita – Ob. Cit.. P. 34
(13) CIPRIANO, Rita – Ob. Cit.. P. 35
Enviar um comentário