quinta-feira, 19 de março de 2015

de "Poemas com rosto" - 37 e 38


JORGE DE SENA

abre-se a fenda
uma ferida exposta na pele
do templo do tempo
das palavras

há um fogo
que matiza suas pedras

um livro nado
e resgatado
de um gesto inicial

uma história
que só nesta era tinha
mais de dois mil anos

uma palavra nova
arremessada
pela íntima fúria

a paixão das coisas
que as mãos erguem e suportam

*

E regresso um pouco triste a uma alegria imensa

Jorge de Sena

ulisses é a viagem
penélope o regresso
ítaca a partida

o que nos aguarda
senão o desígnio
da viagem

de um mar por cruzar
de um silêncio a habitar

cada instante é um rasto
uma pegada

a secreta
cartografia de partir
e regressar

in "Poemas com rosto" (e-book, Virtualbooks, Brasil, 2007)
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