domingo, 15 de março de 2015

Prefácio a "Metamorfose do corpo", de Eduardo Montepuez



Este título: “Metamorfose do corpo”; da autoria de Eduardo Montepuez, convoca-nos para uma peregrinação plena de dualidade. Se por um lado o autor, nesta sua estreia em livro, nos traz uma percepção sobre o que rodeia e altera o corpo, por outro nos sugere essas mesmas alterações de dentro. Isto é: como se o mundo das ideias, tal como defendido por Hegel e o mundo material definido por Marx confluíssem nesse espaço metafórico do corpo, corpo em metamorfose, em constante devir.

Da assumpção do abandono, presente logo na abertura, com o assumir do eu, quando refere: “Abandonei o ventre de minha mãe”, esse abandono é justificado com a necessidade da deriva. Fê-lo porque era preciso: “beber os ensinamentos da luz”, entendida como vida. Mas a vida é “o caminho” porque esse é que “fez-se em luz”, seguindo a ancestral lição de Antonio Machado.

Eduardo Montepuez vai-nos levando e desviando por esse caminho, sem que o caminho em si se altere, antes é o corpo que sofre a influência desse caminho, não só por acção deste, mas também por acção do que em si, no íntimo, se vai desvelando.

Se de súbito o poeta afirma: “O murro é a força motriz / Do parto no poema que nasce”, acção exterior no corpo em mutação, logo nos diz que “o poema nasce no âmago do poeta” como se nos enunciasse a precisão do íntimo para a consumação da transformação.

Ler este “Metamorfose do corpo” é encontrarmo-nos perante uma navegação rente ao corpo físico e ao corpo poético porque, observando-os, imaginando-os, tal como escreve o autor: “o Corpo faz-se no tempo / enquanto o poema se afirma no gesto”.


Coimbra, 17 de Maio de 2010


in MONTEPUEZ, Eduardo - "Metamorfose do corpo". Temas Originais. 2010
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